Favorita no Grupo K, seleção portuguesa domina a posse de bola, mas apresenta futebol burocrático, desperdiça oportunidades e deixa escapar vitória diante dos africanos
Se havia expectativa de uma estreia convincente de Portugal na Copa do Mundo de 2026, ela ficou apenas na expectativa.
Com um elenco recheado de estrelas, liderado por Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha e João Neves, a seleção portuguesa ficou apenas no empate por 1 a 1 com a República Democrática do Congo nesta quarta-feira, em Houston, e iniciou sua caminhada no Mundial sob fortes questionamentos.
O resultado foi recebido como uma surpresa por boa parte do mundo do futebol, especialmente porque Portugal entrou na competição apontada como uma das candidatas a chegar longe no torneio. Em campo, porém, a equipe de Roberto Martínez mostrou um futebol lento, previsível e pouco agressivo diante de uma RD Congo organizada e extremamente competitiva.
Começo animador, mas só isso
A partida até começou da forma que os portugueses imaginavam.
Logo aos seis minutos, Pedro Neto encontrou espaço pela esquerda e cruzou na medida para João Neves abrir o placar de cabeça. O gol dava a impressão de que Portugal teria uma tarde tranquila diante dos africanos.
Mas a realidade foi diferente.
Mesmo com ampla superioridade na posse de bola, a equipe portuguesa teve enorme dificuldade para transformar domínio territorial em oportunidades claras. A circulação de bola era lenta, as jogadas pelos lados pouco produtivas e Cristiano Ronaldo praticamente não recebia bolas em condições de finalizar.
RD Congo cresce e faz história
Enquanto Portugal controlava a posse, a República Democrática do Congo crescia na partida.
Os africanos passaram a explorar os espaços deixados nas transições e encontraram dificuldades cada vez menores para chegar ao campo ofensivo. A recompensa veio nos acréscimos do primeiro tempo.
Após uma jogada de bola parada, Yoane Wissa apareceu livre para cabecear firme e empatar a partida, marcando o primeiro gol da história da RD Congo em Copas do Mundo. O lance entrou imediatamente para a história do futebol do país africano.
Cristiano Ronaldo tem atuação apagada
Grande atração da partida, Cristiano Ronaldo viveu uma tarde discreta.
Aos 41 anos, o atacante entrou para a história ao disputar sua sexta Copa do Mundo e se tornou o jogador de linha mais velho a iniciar uma partida de Mundial. No entanto, dentro de campo, pouco conseguiu produzir.
Bem marcado pelos defensores congoleses, Ronaldo teve poucas participações efetivas e terminou a primeira etapa com apenas 16 toques na bola, número que chamou atenção dos analistas internacionais.
Na segunda etapa, ainda teve duas oportunidades para marcar, mas ambas passaram longe de representar o protagonismo que os torcedores esperavam ver do maior artilheiro da história das seleções.
Portugal teve a bola, mas não teve o jogo
O empate expôs um problema que acompanha Portugal há algum tempo.
A equipe possui enorme qualidade técnica, mas frequentemente encontra dificuldades para acelerar o jogo contra adversários organizados defensivamente.
Contra a RD Congo, a posse de bola chegou a números próximos de 80% em determinados momentos da partida, mas sem que isso se convertesse em volume ofensivo proporcional.
Pior para os portugueses: os africanos ainda tiveram chances reais de virar o confronto. Cedric Bakambu acertou a trave em uma das melhores oportunidades do segundo tempo, deixando os lusos muito perto de uma derrota histórica.
Sinal de alerta para Roberto Martínez
Mais do que os dois pontos perdidos, a atuação preocupa.
Portugal entrou na Copa cercada de expectativas e com um dos elencos mais valiosos da competição. Entretanto, a estreia mostrou uma equipe pouco criativa, dependente de lampejos individuais e incapaz de impor ritmo diante de um adversário teoricamente inferior.
A pressão agora aumenta para o próximo compromisso diante do Uzbequistão.
Um novo tropeço poderá complicar significativamente a caminhada portuguesa no Grupo K e aumentar ainda mais os questionamentos sobre a dependência da equipe em relação a Cristiano Ronaldo, que segue sendo uma lenda do futebol mundial, mas já não consegue influenciar partidas com a mesma frequência de outros tempos.
RD Congo ganha mais que um ponto
Se para Portugal o empate tem sabor de derrota, para a República Democrática do Congo o resultado representa uma conquista histórica.
Após 52 anos longe de uma Copa do Mundo, os africanos não apenas pontuaram, como mostraram organização, personalidade e coragem para enfrentar uma das seleções mais tradicionais do planeta.
Em uma Copa que já teve o empate heroico de Cabo Verde contra a Espanha e a resistência do Marrocos diante do Brasil, a RD Congo se junta à lista de seleções que mostram que o futebol mundial está cada vez mais equilibrado.
E Portugal descobriu isso da maneira mais dolorosa possível.
