Por Fred Silveira
2014 é um marco importante aqui na nossa história: é o ano em que nossos dois personagens estavam no mesmo lugar, em um 25 de junho, no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. José viveu um momento de êxtase, vestido como um típico portenho, berrando que “Maradona es más grande que Pelé”, e vendo Messi marcar dois gols contra a Nigéria – um deles, um golaço, de falta. O camisa 10 já tinha marcado dois gols nos dois jogos anteriores, e tudo parecia se encaminhar para um Brasil x Argentina épico, a maior final de Copa do Mundo de todos os tempos, que iria parar os corações de absolutamente todo o planeta bola!

Getty Images via AFP – CHARLOTTE WILSON
Mas… lembra da Alemanha?
Pois o país de Miroslav Klose – que com seus dois gols no dolorosamente icônico 7×1 do Mineirão ultrapassou Ronaldo Fenômeno e se tornou o maior artilheiro em Copas do Mundo – tinha outros planos: humilhou o Brasil e foi para o Maracanã enfrentar a Argentina de Messi, em uma verdadeira Escolha de Sofia para os torcedores canarinhos.
Messi, que depois do recital em Porto Alegre não tinha feito mais nenhum gol, teve uma chance de ouro, que ele não costuma perder – mas perdeu. Na prorrogação, Mario Götze fez o gol do título alemão, que deu início a uma trilogia de dor para o astro argentino.
A essa altura, já eram cada vez mais audíveis as vozes argentinas que acusavam o craque de falta de identificação com a camiseta argentina. Faltava rebeldia, atitude, até destempero – coisas que Maradona possuía de sobra, e tornava a comparação cada vez mais insuportável para Messi. Até a forma de cantar (ou não cantar) o hino argentino passou a ser criticada.
“Messi es más español que argentino” era uma das frases mais ouvidas pelos lados do Rio da Prata. E iria piorar.
Copas Américas de 2015 e 2016 (100 anos de Copa América): derrotas nos pênaltis para o Chile nas finais, e o mundo de Lionel definitivamente caiu. Depois da final de 2016, ele anuncia que não joga mais pela Selección. A indignação do povo argentino só aumentava, e ele era cada vez mais questionado em sua identidade.
Como Maradona, seus atos não sustentaram suas palavras – o que talvez fosse um bom sinal – e ele voltou atrás em sua decisão. Uma nova Copa do Mundo se avizinhava, e uma nova chance de fazer história e provar que ele era quem ele sempre foi: um argentino que fez a sua vida fora, mas amava seu país e queria mais do que ninguém ganhar algo relevante com a camisa que tanto amava.
Mas a Rússia não trouxe nada de muito positivo para Leo: começou perdendo um pênalti contra a Islândia, salvou a Argentina de uma eliminação precoce fazendo um gol emblemático de pé direito contra a Nigéria, e viu a França atropelar a sua seleção logo nas oitavas de final.
No ano seguinte, mais uma chance de mudar a história em terras brasileiras: a Copa América de 2019 era mais uma oportunidade para Lionel Messi guiar La Selección para uma consagração que não vinha há 26 anos.
O terceiro lugar, com direito a expulsão do camisa 10 na vitória contra o Chile, surpreendentemente teve um outro matiz. Sua postura mais agressiva, que na verdade vinha desde o Mundial 2018, quando no melhor estilo Maradona liderou uma rebelião contra o técnico Jorge Sampaoli, foi lida como uma prova de seu esforço por aparentar uma argentinidad al palo, como se costuma chamar a personalidade dos hermanos. Ele berrou o hino argentino, brigou com Gary Medel, se revoltou contra a arbitragem, e tudo isso ia caindo ao gosto del pueblo.
Por conta das barbeiragens da Conmebol, que decidiu que a partir daquele ano a Copa América aconteceria de 4 em 4 anos, sempre em anos pares, em 2020 Messi teria mais uma oportunidade de quebrar a escrita, e agora em casa, dividindo a organização do evento com a Colômbia.
No entanto, a pandemia e a crise social colombiana não permitiram que o evento se realizasse. Um ano depois, o Brasil vergonhosamente se dispôs a organizar um torneio que jamais deveria ter acontecido. O viés político/ideológico do governo brasileiro cobraria – mais um – alto preço: foi no Maracanã, o palco sagrado do futebol brasileiro, que finalmente o jejum argentino acabaria, e logo contra o Brasil. 1×0 na final com golaço de Di Maria incluído, e a história finalmente tinha um final feliz.
Final? Quem disse?
Os 7 anos que se passaram entre o atordoamento duplo de José na Copa de 2014 para este 2021 haviam transformado a sua vida. O caldeirão de cultura portenha do sul do país já fora deixado para trás; o Nordeste brasileiro era a sua morada, em uma releitura dos Brasis que tanto lhe instigavam, e que agora eram parte do seu cotidiano de mente e coração abertos.
Nesse ambiente, a brasilidade flui mais solta; a dor de 2014 seguiu latente com a geração belga em 2018, e doeu muitíssimo naqueles pênaltis contra a Croácia no Catar – que privaram o mundo de assistir o Brasil x Argentina nas semis que 2014 e a Alemanha haviam negado.
Ainda assim, naquele Argentina x Nigéria de 2018, assistido em um bar no meio de um evento profissional, trouxe no coração de José alguns traços daquela argentinidad de sempre, agora revestida em uma embalagem verde e amarela. Do mesmo jeito que doeu perder pra França – de novo – e ver que o sonho de Messi e de 46 milhões de argentinos seria adiado.
Mas, de novo: quem disse que esse era o final?
Só se fosse da agonia.
FIM DA 2ª PARTE
