Por Fred Silveira
Os dois personagens dessa história têm uma coisa em comum: em algum momento de suas vidas, havia um questionamento – dos outros e deles mesmos – se tinham nascido no lugar certo. O personagem comum, que aqui vamos chamar de José, era um brasileiro feito na Argentina, e seu coração parecia carregar pedaços daquela terra. Se acostumou desde cedo a torcer por um time que nem conseguia chamar de hermanos – porque muitas vezes o reflexo da tela da televisão parecia um espelho de sua pele e de sua alma, se enxergando em um tom de azul e celeste que lhe causava enorme confusão de identidade.

Getty Images via AFP – CHARLOTTE WILSON
A cada 4 anos, nas Copas do Mundo, essa confusão lhe colocava em problemas reais. Esparsas, mas consistentes lembranças de uma Copa do Mundo com 4 anos de idade, onde o seu herói de infância Diego Armando Maradona foi campeão com a Argentina, com direito a dois primos argentinos em sua casa festejando a Copa do Mundo, para desespero de seu pai.
Na Itália, o quase bicampeonato argentino foi impedido por uma seleção que faria nossos dois personagens chorarem nas Copas seguintes. Antes dessa final com gol de pênalti altamente duvidoso, ele já havia vivido uma das primeiras grandes crises de identidade: família reunida na casa de sua vó, e uma vontade incontrolável de gritar o gol de Caniggia com passe de seu herói, marcando a eliminação do seu Brasil de nascimento.
Nos mesmos Estados Unidos do final desse conto, um estrondo de sentimentos desencontrados: revolta e greve de fome pelo banimento de seu herói, êxtase e orgulho pelo primeiro título vivenciado e celebrado por ele de sua nação de origem, a tetracampeã.
4 anos mais tarde, na França, a Copa mais brasileira de seu coração, no primeiro Mundial argentino sem seu herói. No entanto, primeiro Holanda e depois França também começavam ali uma trajetória de tristezas vindouras em seu coração.
E a história comum de Copas do Mundo de José tem um ponto de culminação no pentacampeonato com o Felipão que ele tanto amava. Antes disso, a eliminação da Argentina para a Suécia na fase de grupos em uma madrugada solitária teve algum efeito emocional, quando ele se percebeu alvo de zoações de seus amigos que sabiam que seu coração vestia celeste e branco junto com o verde e amarelo.
E então, o nosso personagem não só famoso, mas quem realmente importa e impulsiona este conto: Lionel Andrés Messi Cuccitini. Nascido em Rosario, Argentina, 5 anos depois que nosso personagem comum nasceu. Ao contrário dele, teve uma infância tranquila quanto à sua identidade. Craque de bola, diferente de todos os outros, logo começou a alimentar um sonho de ser jogador de futebol.
Quando esse sonho começa a tomar forma, vem a mudança profunda em sua vida, que lhe causaria todos os questionamentos quanto a quem ele era: Barcelona seria seu novo lar, aos 13 anos de idade, e lá ele viveria a sua explosão de talento que o levaria ao ápice de glória futebolística – muito embora seria exatamente a partir daí que começariam os questionamentos quanto à sua identidade.
Ícone de um Barcelona vencedor, símbolo do fracasso argentino que durava muito tempo. Um menino humilde, calado, que preferia mostrar sua liderança com a bola nos pés – o que, por motivos diferentes, raramente acontecia vestindo a camisa que Diego Maradona transformou em um símbolo. Símbolo de rebeldia, de irresignação, de mística; tudo o que Messi não era.
E ele até que tentou: em 2006, na sua primeira Copa do Mundo, o menino magrinho e cabeludo, vestindo a camiseta 19, reserva, conseguiu o seu primeiro gol em Mundiais. Logo depois, nas quartas de final contra a Alemanha (em mais um round de desilusão contra os germânicos), viu do banco de reservas a sua seleção ser eliminada nos pênaltis – e muita gente entendeu que, tivesse ele em campo, as coisas poderiam ter sido diferentes. Dois anos depois, em Pequim, sua primeira glória com a camisa albiceleste: o ouro olímpico.
Em 2010, um alinhamento da lua com as estrelas e com os cometas colocou Diego Maradona como técnico de Lionel Messi, agora titular, afirmado e dono da camisa 10 – com as bênçãos de Diego. A África do Sul testemunhou a pior Copa de Lionel, fechando a sua participação com nenhum gol em uma goleada de 4×0 sofrida para a – adivinhem? – Alemanha.
Um ano depois, a chance da redenção argentina: uma Copa América em casa, já com Checho Batista como técnico, uma constelação de craques que adornavam o talento de Messi: Tevez, Agüero, Di Maria, Mascherano, dentre outros. Tudo parecia se encaminhar para o fim do jejum de títulos continentais que vinha desde 1993; mas uma eliminação pro Uruguai nos pênaltis foi o início de uma sequência de derrotas dolorosas em Copas Américas, que foram minando a chance de Messi ser o ídolo argentino como era culé.
E não foi por falta de tentativas.

Em 2014, a Copa do Mundo seria em solo brasileiro. Que chance maravilhosa de redenção, não é, Lionel? E tudo isso, aos olhos e presença de José.
FIM DA 1ª PARTE
